sexta-feira, 14 de agosto de 2026Noticias em tempo real
Jornal Diário
Notícias

Lula recebe familiares de vítimas da ditadura no Alvorada

Por Jornal Diário · · 3 min de leitura
Lula recebe familiares de vítimas da ditadura no Alvorada
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a noite da última segunda-feira (10) marcou a primeira vez em seus três mandatos em que ele recebeu em palácio uma comitiva de familiares de mortos e desaparecidos políticos. De acordo com o relato dos presentes, o encontro ocorreu durante uma sessão no Palácio da Alvorada do filme "Honestino", cinebiografia do líder estudantil Honestino Guimarães, assassinado pela ditadura e cujo corpo jamais foi encontrado.

Conforme informações da comitiva, o evento não configurou uma audiência oficial, demanda feita há anos sem sucesso por parentes de mortos e desaparecidos e militantes de direitos humanos. Apesar disso, segundo os participantes, a reunião de alguns desses representantes na residência oficial da Presidência foi motivo de celebração.

De acordo com Diva Santana, irmã de Dinaelza Coqueiro, militante do PC do B morta pela ditadura na região do Araguaia e cujo corpo jamais foi encontrado, o grupo ficou contente com o encontro, sendo a primeira vez que foram recebidos. Ela afirmou que foi uma honra e que foram muito bem tratados, tendo apresentado a Lula todo o trabalho que a comissão tem feito. Diva, que é representante dos familiares na CEMDP (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos), órgão de Estado com apoio do Ministério dos Direitos Humanos, destacou que essas ações só são possíveis no processo democrático, lembrando que a comissão foi extinta durante o governo Jair Bolsonaro.

Estiveram presentes, segundo a organização do evento, Vera Facciolla Paiva, filha de Rubens Paiva e Eunice Paiva, professora de psicologia da USP e representante da sociedade civil na CEMDP, além da presidente do colegiado, a procuradora da República Eugênia Gonzaga, e dois parentes do homenageado da noite, Juliana Botelho Guimarães Lopes, filha de Honestino, e Lucas Botelho Guimarães Lopes, neto do líder estudantil.

Eugênia Gonzaga afirmou que foi muito simbólico estar presente naquele momento, especialmente para assistir a um filme tão significativo para as famílias. Conforme a procuradora, ela entregou a Lula uma sacola bordada de um dos encontros dos familiares e um bottom bordado com o nome do operário Manuel Fiel Filho, assassinado pela ditadura. A primeira-dama Janja recebeu dois bottons, um com o nome de Dinaelza e outro de Stuart Angel, também morto pela repressão, devido ao fato de ser flamenguista e Stuart ter sido atleta de remo do clube.

Na ocasião, ainda de acordo com Eugênia Gonzaga, ela mostrou a Lula a certidão de óbito retificada de Honestino Guimarães, na qual consta morte não natural, violenta, causada pelo Estado no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política no regime ditatorial instaurado em 1964. A presidente da CEMDP convidou o presidente para a última rodada de entrega de certidões de óbito retificadas no final do ano e reiterou a importância de ele continuar encontrando as famílias, o que representaria uma nova fase de reparação imaterial.

Segundo relatos de 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, familiares de mortos e desaparecidos e militantes de direitos humanos criticaram o presidente pela demora em recriar a CEMDP e por declarações sobre o tema ser parte do passado. Na ocasião, Suzana Keniger Lisboa, viúva de Luiz Eurico Tejera Lisboa, militante da ALN assassinado em 1972, disse que a revolta era pelo fato de ele ter recebido outras pessoas e não os familiares. Procurada para comentar o encontro da última segunda, Suzana Lisboa não atendeu à ligação nem respondeu às mensagens da reportagem.

Diva Santana afirmou que ainda há muito desgosto entre os familiares pelas tentativas em vão de saber o que foi feito dos corpos dos parentes. Ela disse ter 81 anos e não ter desistido, acreditando na força do grupo. Para ela, a mobilização ganhou tração depois do filme "Ainda Estou Aqui" e é preciso seguir em frente, mesmo com pessoas descontentes que perderam a expectativa. Além de Diva, Vera e Eugênia, estavam na sessão outros dois integrantes da CEMDP, o poeta e ex-preso político Hamilton Pereira, o Pedro Tierra, e Elaine Pires. Três ministros estavam presentes, dos Direitos Humanos (Janine Mello), da Educação (Leonardo Barchini) e da Cultura (Margareth Menezes), além da equipe do longa, dirigido por Aurélio Michiles.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X
Leia também