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Diretor do BC diz à PF que agiu em sigilo por medo de vazamentos no caso Master

Por Jornal Diário · · 4 min de leitura
Diretor do BC diz à PF que agiu em sigilo por medo de vazamentos no caso Master
ailton aquino diretor brb

Segundo o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, a decisão sobre o futuro do Banco Master foi tomada em meio a um ambiente hostil no órgão, com intensos vazamentos de informações. Em depoimento à Polícia Federal, ele afirmou que, por esse motivo, manteve em sigilo a decisão de liquidar a instituição financeira de Daniel Vorcaro, em novembro do ano passado.

De acordo com o relato de Aquino aos investigadores, ele escondeu de Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do BC, e de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, a decisão pela liquidação do banco. Os dois servidores são investigados por receber pagamentos de Vorcaro e, conforme suas defesas, negam ter adotado medidas de favorecimento ao ex-banqueiro.

Reunião na véspera da liquidação

O depoimento, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmado pela reportagem, narra os eventos do dia 17 de novembro, véspera do anúncio do desligamento do Master do Sistema Financeiro Nacional. Aquino relatou que ele e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não confiavam em ninguém naquele momento e já haviam decidido pela liquidação.

Aquino afirmou que Vorcaro pedia uma reunião, mas a intenção era recebê-lo apenas no dia 19. No entanto, conforme seu relato, Santana e Paulo Sérgio atuaram como intermediários e insistiram para que o ex-banqueiro fosse recebido na segunda-feira, dia 17. Em reunião por teleconferência, por volta das 12h30, Vorcaro apresentou a proposta de venda do Master para a Fictor por R$ 3 bilhões, com investidores árabes que nunca foram revelados.

Segundo o depoimento, Vorcaro insistia em perguntar a opinião de Aquino sobre a proposta, como se buscasse uma manifestação favorável. A transação foi divulgada à imprensa horas depois, mas não se concretizou. Vorcaro foi preso na noite daquele dia no aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar em um jatinho. A PF suspeita que a viagem aos Emirados Árabes seria uma tentativa de fuga, o que ele nega.

O diretor do BC afirmou que se manteve neutro durante a reunião e não demonstrou comprometimento com a operação, enquanto Vorcaro demonstrava urgência e queria entregar a documentação antes de viajar. Naquele dia, conforme revelou a Folha de S. Paulo, também houve uma tentativa de vender um apartamento de R$ 60 milhões em São Paulo, negociação que também não foi concluída.

Sigilo atípico

Questionado se achava que o ex-banqueiro já sabia da liquidação, Aquino declarou que estava conjecturando e sendo leviano ao fazê-lo, mas que o comportamento do banqueiro na ocasião gerava esse sentimento, sem que houvesse como afirmar com certeza. Ailton contou que Galípolo convocou uma reunião com a diretoria do BC naquele dia, e a liquidação do Master foi aprovada.

O diretor do BC classificou como atípica a decisão de guardar segredo internamente sobre a liquidação. Segundo ele, em condições normais, o coordenador, o chefe de divisão, o adjunto e o chefe de departamento são previamente informados para se prepararem. No caso do Banco Master, somente ele, o presidente do BC, o procurador e o responsável pela execução da liquidação foram informados.

Investigações em curso

A conduta dos ex-gestores do BC é analisada pela Controladoria-Geral da União desde março em um Processo Administrativo Disciplinar que pode levar à expulsão dos servidores. O processo incluiu uma sindicância patrimonial dos dois. Em paralelo, tramita no BC um Processo Administrativo Sancionador referente às carteiras cedidas ao BRB. A Polícia Federal investiga se ambos foram favorecidos financeiramente em troca de informações e auxílio aos interesses do Master dentro do BC.

Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023 e depois assumiu o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária, liderado por Belline de 2019 a 2026. Funcionários de carreira com quase três décadas de casa, a dupla contava com a confiança dos colegas. Segundo a Folha de S. Paulo, o indício de envolvimento deles no caso Master gerou abatimento e perplexidade entre os funcionários.

Conforme as investigações, os servidores são suspeitos de atuar como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A evolução patrimonial dos ex-gestores motivou a abertura de investigação interna no BC. A sindicância patrimonial concluiu que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar recebimento de propina. A defesa dele afirma que a venda foi efetiva. A investigação também concluiu que Belline simulou dois contratos, no total de R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Master para esconder propina. Sua defesa nega que ele tenha favorecido o conglomerado.

O Banco Central decretou a liquidação do Master em novembro do ano passado. Os bens estão sob controle do liquidante designado pela autoridade, e os custos da quebra do banco superam os R$ 57 bilhões até o momento.

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