Show de Ana Castela por R$ 850 mil gera debate sobre emenda do PL
Cantora se apresentou em São Fidélis com cachê pago por verba federal e voltou direto para a Festa do Peão de Barretos

A cantora Ana Castela se apresentou na madrugada desta sexta-feira, 28 de agosto de 2026, em São Fidélis, no interior do Rio de Janeiro, e retornou logo em seguida para a Festa do Peão de Barretos, compromisso que já tinha na agenda. O cachê do show fluminense, de R$ 850 mil, foi bancado com recursos públicos originados de uma emenda parlamentar, segundo apurou o Metrópoles.
A artista comentou a correria entre os compromissos em publicação nos Stories, dizendo ter abandonado uma comemoração em São Paulo para cumprir a apresentação. A frase, resumida por ela como ida ao "trabalho", marcou o tom da noite de deslocamentos rápidos entre dois estados.
Origem do dinheiro e a polêmica com Nikolas Ferreira
O episódio ganhou repercussão política porque, dias antes, Ana Castela havia posado ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, fazendo com as mãos o sinal do número 2, gesto associado ao número de urna 22 do partido. A publicação intensificou a atenção sobre a origem dos recursos que pagaram o show seguinte.
De acordo com o colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, o show em São Fidélis foi viabilizado por uma emenda de R$ 1 milhão destinada pela Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados. A solicitação partiu da deputada Dani Cunha, do PL, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, hoje filiado ao Republicanos e candidato a uma vaga no Congresso por Minas Gerais.
O prefeito de São Fidélis, José William, é do mesmo partido de Nikolas Ferreira, informação também levantada pela reportagem do Metrópoles. A proximidade entre os nomes envolvidos, a emenda federal e o cachê da cantora tornou o caso alvo de questionamentos sobre o uso de verba pública em shows.
Volume de contratos da Boiadeira Music com prefeituras
Além do show no Rio de Janeiro, a empresa que administra a carreira de Ana Castela, a Boiadeira Music, aparece em registros do Portal Nacional de Contratações Públicas com 26 contratos firmados com prefeituras ao longo de 2026. Somados, esses acordos alcançam R$ 22,6 milhões, conforme apurações do Metrópoles e do Diário da Mídia.
Prefeituras administradas pelo PSD concentram o maior número de contratações com a artista, seguidas por gestões do PP e do PSDB. Um dos contratos citados é o da prefeitura de Nova Belém, em Minas Gerais, que pagou R$ 900 mil por uma apresentação.
O valor pago por Nova Belém representa 8,7% dos R$ 10,34 milhões que o município recebeu em repasses do Fundo de Participação dos Municípios em 2026, de acordo com dados do Tesouro Transparente citados pelas duas reportagens. A proporção chamou atenção por evidenciar o peso do cachê artístico diante do orçamento disponível para uma cidade de pequeno porte.
O que ainda falta esclarecer
Até a publicação das reportagens que embasam esta matéria, não havia posicionamento público de Ana Castela, da Boiadeira Music ou da deputada Dani Cunha sobre os questionamentos referentes ao uso da emenda federal para custear o show em São Fidélis. Também não foi divulgado se outros contratos da artista com o poder público seguem o mesmo modelo de financiamento via emenda parlamentar.
O caso escancara uma prática recorrente no mercado de shows brasileiro, em que prefeituras usam verbas federais e recursos próprios para contratar artistas de grande apelo popular durante festas regionais. A repercussão da foto com Nikolas Ferreira, no entanto, deu contorno político a uma negociação que, isoladamente, seguiria os trâmites comuns desse tipo de contratação.
Para quem acompanha a agenda da cantora, o episódio não muda a rotina de shows: Ana Castela segue cumprindo compromissos em Barretos e outras praças. O que fica em aberto é a transparência sobre como emendas parlamentares têm sido direcionadas para contratações artísticas específicas, tema que depende de resposta dos órgãos envolvidos e, possivelmente, de fiscalização adicional sobre o uso desse tipo de recurso.


